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sábado, 9 de dezembro de 2017

Coreia do Norte quer "independência, paz e amizade" com todos

23.08.2017
Entrevista: Coreia do Norte quer

















Entrevista com o Delegado Especial do Comitê para Relações Culturais com Países Estrangeiros do Governo da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), Alejandro Cao de Benós
Eduardo Vasco, Pravda.Ru
A Coreia do Norte vem sofrendo ininterruptamente as hostilidades por parte dos Estados Unidos desde o começo do ano. As últimas sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas visam isolar ainda mais o país economicamente e pressioná-lo politicamente para que acabe com seu programa nuclear.
As armas desenvolvidas pela nação asiática, estigmatizada como um perigo para o mundo, servem como um poderoso instrumento de defesa e dissuasão diante das agressões dos EUA, cujo presidente, Donald Trump, ameaça com "fogo e fúria" caso a RPDC se atreva a desafiá-lo.

Como a Coreia do Norte pode ser uma ameaça, se não é ela quem mantém tropas na fronteira com os EUA? Por acaso foi ela quem matou centenas de milhares de civis com bombas atômicas em Hiroshima e Nagazaki? É Pyongyang quem espalha suas bases militares por todo o globo? Quem é que detém quase oito mil armas nucleares, a Coreia? Essas são algumas das perguntas que se fazem os analistas críticos, ao questionarem a narrativa de Washington e da mídia internacional.Chama a atenção para qualquer pessoa atenta à realidade o discurso do governo dos EUA, reproduzido sem questionamentos pelos grandes meios de comunicação. Dizem que a Coreia do Norte é a ameaça, enquanto é difícil acreditar que um pequeno país que não se envolve em guerras pode representar uma ameaça à humanidade, especialmente aos EUA, que já bombardearam incontáveis países e possuem o maior poderio militar do planeta. O Pentágono mantém quase 40 mil tropas no Japão e mais de 23 mil na fronteira da Coreia do Sul com o Norte. As forças armadas estadunidenses fazem frequentes exercícios militares conjuntos com Seul próximo à fronteira, o que é interpretado por Pyongyang como uma clara provocação.
Pravda.Ru entrevistou o único ocidental a serviço do Estado norte-coreano. O espanhol Alejandro Cao de Benós é Delegado Especial do Comitê para Relações Culturais com Países Estrangeiros do Governo da República Popular Democrática da Coreia (RPDC).
Como o senhor explica essa inversão de posições feita pela mídia, que tacha a Coreia como uma ameaça e os EUA como os justiceiros?
É uma tática psicológica usada regularmente pelo sistema. A mídia a serviço do capital sempre tenta demonizar qualquer um que não siga os ditames do império estadunidense. Assim, tenta-se passar uma imagem de "terror" ou de "perigo iminente" que deve ser combatido pelo "guardião da democracia". Digamos que tenta-se transportar para o mundo real a fantasia do Capitão América ou do Superman, fazendo os inocentes parecerem vilões e os invasores como se fossem libertadores. Isso funciona de forma superficial, mas quando alguém se informa minimamente por fontes alternativas, se dá conta de que é tudo uma montagem, como as armas de destruição em massa do Iraque, que nunca existiram e que justificaram a invasão e destruição daquele país.
Qual é o motivo da RPDC desenvolver armas nucleares?
A dissuasão. As armas nucleares atuam como equalizador ante a maior potência nuclear do mundo, os EUA. Elas nos asseguram que o império não se atreverá a invadir a Coreia, porque isso resultaria em uma guerra termonuclear e no fim do mundo como o conhecemos. Os países com armas nucleares garantem seu futuro e a paz para sua população.
No último dia 15 de agosto o governo dos EUA publicou o relatório anual sobre liberdade religiosa e nele se afirma que a RPDC viola sistematicamente a liberdade de religião de seus cidadãos, embora ela seja garantida pela constituição do país e existam igrejas de diferentes matizes religiosas na RPDC. Afinal, os norte-coreanos são livres para expressar suas crenças religiosas?
Os norte-coreanos têm total liberdade para praticar suas crenças religiosas, de acordo com as religiões existentes no país: Budismo, Chondoísmo e Cristianismo (protestantes e católico). Esse relatório manipulado é parte da propaganda contínua para justificar a asfixia econômica e a invasão da RPD da Coreia.
A mídia também diz que o país é uma ditadura porque supostamente não há eleições. Isso é verdade?
Há eleições gerais a cada cinco anos. Qualquer cidadão maior de 17 anos pode votar e ser votado para a Assembleia Popular Suprema (o órgão máximo do país), que atualmente conta com 687 deputados.
Por que na RPDC se censura o que vem do Ocidente?
Porque não queremos que entre as porcarias de sua sociedade decadente. Consumo de drogas, prostituição, terrorismo, violência doméstica, individualismo, colonização cultural, etc.
Nosso modelo de sociedade é baseado na comunidade, no esforço conjunto, e o país está livre de muitas dessas doenças sociais, e queremos que continue assim.
O senhor pode nos explicar de forma resumida por que existe o culto ao Líder e à ordem, por que a sociedade norte-coreana é tão coesa? Essas características também dão aos ocidentais a impressão de que o governo controla a sociedade e que o país é uma ditadura.
Entender o carinho e a coesão para com o Líder é complicado sem se conhecer o confucionismo, o budismo e a história da nação coreana. Um ocidental não pode assimilar isso facilmente, porque a cultura é radicalmente diferente. Devemos entender a posição do Líder como um elemento de união, de coesão social, não a de um ditador que faz o que deseja. Pelo contrário, o Líder deve ser exemplo de humildade e que se senta no chão junto aos operários para ouvir seus conselhos. Digamos que ele é o eixo sobre o qual gira a unidade de ação. A Coreia esteve submetida à tortura e à invasão durante centenas de anos. Isso criou uma união no povo diante das ameaças exteriores, e se somarmos a isso o carisma e o carinho de nossos líderes para com o povo e vice-versa, temos o conceito de "grande família" da qual todos os cidadãos se sentem participantes.
Quais são as principais conquistas econômicas, científicas e tecnológicas da RPDC? O povo desfruta essas conquistas?
Na RPDC tudo pertence ao povo. Como tal, ele desfruta de todos os avanços arquitetônicos e de construção, de criação, tecnológicos etc. Desde o lançamento de satélites artificiais que asseguram uma melhor produção mineral e colheitas, até o desenvolvimento de smartphones e computadores próprios, passando pelo uso de energias renováveis em todos os campos, ou os avanços em medicina dos quais toda a população disfruta gratuitamente. Qualquer desenvolvimento é pensado para o benefício de todo o povo, e não só o de alguns poucos privilegiados.
O desenvolvimento dos foguetes e mísseis intercontinentais é o mais recente. Por um lado a nação economiza milhões de dólares em fotos e estudos desde o espaço, por outro inclui o país dentro do clube nuclear e o blinda contra a agressão externa. Dessa forma, o povo pode viver em paz, e não na miséria absoluta que a "democracia imperialista" promove, como na Líbia, no Afeganistão ou no Iraque.
A RPDC foi condenada ao isolamento pelas grandes potências. Mas como é a relação econômica e política com países próximos ideologicamente, como China, Vietnã, Cuba, Síria etc?
Existe uma relação comercial pública e outra "pela porta dos fundos". A RPDC tem estado submetida a sanções desde a criação do país. E ainda que a maioria dos antigos países socialistas seja agora parte da maquinaria capitalista, tem seus próprios interesses comerciais. Com os países citados existe não só colaboração comercial, mas também militar.
E como são as relações políticas com esses países?
As relações são positivas e há uma maior cooperação do que com os outros países, porque em vários casos as populações lutaram juntas, como na Guerra do Vietnã contra os EUA ou na independência da China contra o império japonês.
No último dia 16 de agosto o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, declarou que o Brasil e outros países da América Latina deveriam romper relações com a RPDC. O que você diria ao povo brasileiro sobre isso? O que pensam o povo e o governo norte-coreanos sobre o Brasil e as relações entre esses dois países e povos?
Eu diria ao povo brasileiro [para se questionar] por que não tem direito a ser soberano e decidir independentemente sobre seu futuro e suas relações exteriores. É um insulto que o Sr. Pence se apresente em outros países e publicamente dê ordens aos povos do mundo. Isso demonstra até que ponto os EUA são um império e não lhes importa o que decidam os demais. Os cidadãos de cada país devem se levantar e exigir seu direito a controlar sua própria nação, e deixar de ser um instrumento da política dos outros.
As relações entre o Brasil e a RPD da Coreia foram avançando nos últimos anos. A abertura da Embaixada em Brasília é uma amostra da importância de tais relações e as possibilidades de colaboração entre ambas as nações. O Brasil pode ajudar muitíssimo a Coreia no tema agrícola, alimentar e florestal, e a Coreia pode ajudar na engenharia, tecnologias da informação e defesa.+
A política da Coreia nas relações exteriores é: Independência, Paz e Amizade. Isso significa uma política de braços abertos, a não intervenção em assuntos internos e o respeito pelos outros povos.
Eduardo Vasco
Pravda.Ru

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DIALÉTICA



INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DIALÉTICA
I. — Precauções preliminares.
II. — De onde nasceu o método dialético?
III. — Por que foi a dialética, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVIII?
V. — Como nasceu o materialismo dialético: Hegel e Marx.

I. — Precauções preliminares.
Quando se fala da dialética, é, por vezes, com mistério e apresentado-a como qualquer coisa de complicado.
Conhecendo mal o que é, fala-se dela, também, a torto e a direito. Tudo isso é lamentável, e faz cometer erros que é preciso evitar.
Tomado no seu sentido etimológico, o termo dialética significa, simplesmente, a arte de discutir, e é assim que se ouve, muitas vezes, dizer de um homem que discute longamente, e mesmo também, por extensão, daquele que fala bem: é um dialético!
Não é nesse sentido que vamos estudar a dialética. Tomou, sob o ponto de vista filosófico, uma significação especial.
A dialética, no sentido filosófico, contrariamente ao que se pensa, está ao alcance de todos, porque é uma coisa muito clara e sem mistério.
Mas, se pode ser compreendida por toda a gente, tem, todavia, as suas dificuldades; e, eis como devemos compreendê-las.
Entre os trabalhos manuais, alguns são simples, outros, mais complicados. Fazer caixas de embalagem, por exemplo, é um trabalho simples. Montar um aparelho de T.S.F., pelo contrário, representa um trabalho que requer muita habilidade, precisão, agilidade dos dedos.
As mãos e os dedos são para nós instrumentos de trabalho. Mas o pensamento também o é. E se os dedos não fazem sempre um trabalho de precisão, o mesmo acontece com o nosso cérebro.
Na história do trabalho humano, o homem, no início, apenas sabia fazer trabalhos grosseiros. O progresso nas ciências permitiu trabalhos mais precisos.
Acontece exatamente o mesmo com a história do pensamento. A metafísica é esse método de pensamento que apenas é capaz, como os nossos dedos, de movimentos grosseiros (como pregar caixotes ou puxar as gavetas da metafísica).
A dialética difere deste método, porque permite uma maior precisão. É apenas um método de pensamento de grande precisão.
A evolução do pensamento foi a mesma que a do trabalho manual. É a mesma história, não havendo nenhum mistério: tudo é claro nesta evolução.
As dificuldades que encontramos provêm de que, até há vinte e cinco anos, pregamos caixotes, e, subitamente, nos colocam em frente dos aparelhos de T.S.F. para fazer a montagem. É certo que teremos grandes dificuldades, que as nossas mãos serão pesadas, os dedos inábeis. Só pouco a pouco conseguiremos suavizar-nos e realizar esse trabalho. O que era muito difícil no princípio, parecer-nos-á, depois, mais simples. Para a dialética, é a mesma coisa. Estamos embaraçados, de erros pelo antigo método de pensamento metafísico, e devemos adquirir a maleabilidade, a precisão do método dialético. Mas, vemos que, ainda aí, nada há de misterioso nem de muito complicado.

II. — De onde nasceu o método dialético?
Sabemos que a metafísica considera o mundo como um conjunto de coisas congeladas, e, ao contrário, se olharmos a natureza, vemos que tudo se move, tudo muda. Constatamos a mesma coisa com o pensamento.
Resulta desta constatação, portanto, um desacordo entre a metafísica e a realidade. É por isso que, para definir de uma maneira simples e dar uma ideia essencial, se pode dizer: quem diz «metafísica» diz «imobilidade», e quem diz «dialética» diz «movimento».
O movimento e a mudança, que existem em tudo o que nos rodeia, estão na base da dialética.
Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa, própria atividade mental, o que se nos oferece, em primeiro lugar, é o quadro de uma confusão infinita de relações, de ações e reações, onde nada permanece o que era, onde era, como era, onde tudo se move, se transforma, vem a ser e passa47.
Vemos, depois deste texto tão claro de Engels, que, do ponto de vista dialético, tudo muda, nada fica onde está, nada permanece o que é, e, por consequência, tal ponto de vista está em perfeito acordo com a realidade. Nenhuma coisa permanece no lugar que ocupa, uma vez que mesmo o que nos aparece como imóvel se move; move-se com o movimento da terra em volta do sol; e no movimento da terra sobre ela mesma. Na metafísica, o princípio de identidade quer que uma coisa permaneça ela própria. Vemos, pelo contrário, que nenhuma coisa permanece o que é.
Temos a impressão de ficar sempre os mesmos, e, portanto, diz-nos Engels, «os mesmos são diferentes».
Pensamos ser iguais e já mudamos. Da criança que éramos, tornamos homem, e este, fisicamente, jamais fica o mesmo: envelhece todos os dias.
Não é, pois, o movimento que é a aparência enganadora, como o sustentavam os Eleatas, é a imobilidade, visto que, de fato, tudo se move e tudo muda.
A história também nos prova que as coisas não permanecem o que são. Em nenhum momento a sociedade está imóvel. Primeiramente, houve, na antiguidade, a sociedade escravagista, sucedeu-lhe a feudal, depois a capitalista. O estudo dessas sociedades mostra-nos que, continuamente, insensivelmente, os elementos que permitiram o nascimento de uma sociedade nova desenvolveram-se nelas. E, é por isso que os metafísicos não compreendem o que é essa mudança. Continuam a julgar uma sociedade transformada,como era antes, com os seus sentimentos de homens sofrendo ainda a opressão.
Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas uma simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas vezes, em ódio.
O que vemos por toda a parte, na natureza, na história, no pensamento, é a mudança e o movimento. É por esta constatação que começa a dialética.
Os Gregos impressionaram-se pelo fato de se encontrar por toda a parte a mudança e o movimento. Vimos que Heráclito, o chamado «pai da dialética», foi o primeiro a dar-nos uma concepção dialética do mundo, isto é, descreveu-o em movimento e não congelado. A maneira de ver de Heraclito pode tornar-se um método.
Mas este método dialético não pôde afirmar-se senão muito mais tarde, e é-nos necessário ver porque razão a dialética foi muito tempo dominada pela concepção metafísica.

III. — Por que foi a dialética, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
Vimos que a concepção dialética nascera muito cedo na história, mas que os conhecimentos insuficientes dos homens permitiram à concepção metafísica desenvolver-se e passar à frente da dialética.
Podemos fazer aqui um paralelo entre o idealismo, que nasceu da grande ignorância dos homens, e a concepção metafísica, que nasceu dos conhecimentos insuficientes da dialética.
Como e porquê foi isso possível?
Os homens começaram o estudo da natureza num estado de completa ignorância. Para estudar os fenômenos que constatam, começam por classificá-los. Mas, da maneira de classificar resulta um hábito do espírito. Ao criar categorias, e separando-as umas das outras, o nosso espírito habitua-se a efetuar tais separações, e voltamos a encontrar aí os primeiros caracteres do método metafísico. É, pois, na verdade, da insuficiência do desenvolvimento das ciências que sai a metafísica. Ainda há 150 anos, se estudava as ciências separando as umas das outras. Estudava-se à parte a química, a física, a biologia, por exemplo, e não se via entre elas qualquer relação. Continuava-se, também, a aplicar esse método no interior das ciências: a física estudava o som, o calor, o magnetismo, a eletricidade,, etc., e pensava-se que estes diferentes fenômenos não tinham qualquer relação entre si; estudava-se cada um deles em capítulos separados.
Na verdade, reconhecemos, aí, o segundo caráter da metafísica, que quer que se desconheçam as relações das coisas e nada haja de comum entre elas.
Do mesmo modo, é mais fácil conceber as coisas no estado de repouso do que em movimento. Tomemos como exemplo a fotografia: vemos que, em primeiro lugar, se procura fixar as coisas na sua imobilidade (é a fotografia), depois, somente pela sequência, no seu movimento (é o cinema). Pois bem! A imagem da fotografia e do cinema é a do desenvolvimento das ciências e do espírito humano. Estudamos as coisas em repouso, antes de as estudar no seu movimento.
E isso porquê? Porque não se sabia. Para aprender, tomou-se o ponto de vista mais fácil; ou as coisas imóveis são mais fáceis de perceber e estudar. Certamente, o estudo das coisas em repouso é um momento necessário do pensamento dialético — mas só um momento, insuficiente, fragmentário, e que é preciso integrar no estudo das coisas em transformação.
Encontramos esse estado de espírito na biologia, por exemplo, no estudo da zoologia e da botânica. Porque não se conheciam bem, classificaram-se, primeiro, os animais em raças, espécies, pensando que entre elas não havia nada de comum e que fora sempre assim (terceiro caráter da metafísica). Ê daí que vem a teoria a que se chama o «fixismo» (que afirma, contrariamente ao «evolucionismo», que as espécies animais foram sempre o que são, que nunca evoluíram), que é, por conseguinte, uma teoria metafísica, proveniente da ignorância dos homens.

IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVlll?
Sabemos que a mecânica desempenhou um grande papel no materialismo do século XVIII e que este é muitas vezes chamado o «materialismo mecanicista». Por que aconteceu assim? Porque a concepção materialista está ligada ao desenvolvimento de todas as ciências e, entre estas, foi a mecânica que se desenvolveu primeiro. Na linguagem corrente, a mecânica é o estudo das máquinas; em linguagem científica, o do movimento no que respeita a deslocação. E se a mecânica foi a ciência que primeiro se desenvolveu, é porque o movimento mecânico é o mais simples. Estudar o movimento de uma maçã que balança ao vento, num pomar, é muito mais fácil do que estudar a mudança que se produz na maçã que amadurece. Pode estudar-se mais facilmente o efeito do vento sobre a maçã do que a sua maturação. Mas este estudo é «parcial», abrindo, assim, a porta à metafísica.
Muito embora observem que tudo é movimento, os antigos Gregos não podem tirar partido de tal observação, porque o seu saber é insuficiente. Então, observam-se as coisas e os fenômenos, classificam-se, contentam-se em estudar a deslocação, daí a mecânica; e a insuficiência dos conhecimentos nas ciências dá origem à concepção metafísica.
Sabemos que o materialismo é sempre baseado nas ciências e que, no século XVIII, a ciência era dominada pelo espírito metafísico. De todas, a mais desenvolvida nessa época era a mecânica.
É por isso que era inevitável, dirá Engels, que o materialismo do século XVIII fosse um materialismo metafísico e mecanicista, porque as ciências eram assim.
Diremos, portanto, que o materialismo metafísico e mecanicista era materialista, porque respondia à pergunta fundamental da filosofia - o fator primeiro é a matéria -, mas era metafísico, porque considerava o universo como um conjunto de coisas congeladas e mecânicas, porque estudava e via todas as coisas através da mecânica.
Virá um dia em que se chegará, por acumulação das pesquisas, a constatar que as ciências não são imóveis; aperceber-se-á que, nelas, se produziram transformações. Depois de ter separado a química da biologia e da física, dar-se-á conta de que se torna impossível tratar qualquer delas sem ter de recorrer às outras. Por exemplo, o estudo da digestão, que é do domínio da biologia, torna-se impossível sem a química. No século XIX, aperceber-se-á, pois, que as ciências estão ligadas entre si, e resultará um retrocesso do espírito metafísico nas ciências, porque se terá um conhecimento mais aprofundado da natureza. Até lá, tinha-se estudado os fenômenos da física separadamente; agora, era-se obrigado a constatar que todos esses fenômenos eram da mesma natureza. É assim que a eletricidade e o magnetismo, que se estudavam separadamente, estão reunidos hoje numa ciência única: o electromagnetismo.
Ao estudar os fenômenos do som e do calor, descobriu-se, do mesmo modo, que ambos eram provenientes de um fenômeno da mesma natureza.
Batendo com um martelo, obtém-se um som e produz-se calor. É o movimento que produz calor. E sabemos que o som provém de vibrações no ar, também estas são movimento. Portanto, eis dois fenômenos da mesma natureza.
Em biologia, chegou-se, classificando cada vez mais minuciosamente, a encontrar espécies que não se podiam classificar, nem como vegetais, nem como animais. Não havia, pois, separação brusca entre uns e outros. Desenvolvendo-se sempre os estudos, chegou-se a concluir que os animais não foram sempre o que são. Os fatos têm condenado o fixismo e o espírito metafísico.
Foi no decurso do século XIX que se produziu esta transformação que acabamos de ver, e que permitiu ao materialismo tornar-se dialético. A dialética é o espírito das ciências que, ao desenvolver-se, abandonaram a concepção metafísica. O materialismo pôde transformar-se, porque as ciências mudaram. Às ciências metafísicas corresponde o materialismo metafísico, e às novas um materialismo novo, o dialético.

V. — Como nasceu o materialismo dialético: Hegel e Marx.
Se perguntamos como se operou essa transformação do materialismo metafísico em dialético, responde-se geralmente dizendo:
1. Havia o materialismo metafísico, o do século XVIII;
2. As ciências mudaram;
3 Marx e Engels intervieram; separaram o materialismo metafísico em dois; abandonando a metafísica, ficaram com o materialismo, juntando-lhe a dialética.
Se temos tendência em apresentar as coisas assim, isso provém do método metafísico, que quer que simplifiquemos as coisas, para fazer um esquema. Devemos, pelo contrário, ter sempre bem presente que jamais os fatos da realidade devem ser esquematizados. Os fatos são mais complicados do que parecem, do que pensamos. Pelo que não há uma transformação tão simples do materialismo metafísico em dialético.
A dialética foi, de fato, desenvolvida por um filósofo idealista alemão, Hegel (1770-1831), que soube compreender a mudança operada nas ciências. Retomando a velha ideia de Heráclito, constatou, ajudado pelos progressos científicos, que, no Universo, tudo é movimento e mudança, nada está isolado, mas tudo depende de tudo, criando, deste modo, a dialética. É a propósito de Hegel que falamos hoje de movimento dialético do mundo. O que Hegel compreendeu primeiro foi o movimento do pensamento, e, naturalmente, chamou-lhe dialético.
Mas Hegel é idealista, isto é, dá a importância primeira ao espírito, e, por consequência, faz do movimento e da mudança uma concepção particular. Pensa que são as mudanças do espírito que provocam as da matéria.
Para Hegel, o universo é a ideia materializada, e, antes dele, existe primeiramente o espírito que descobre o universo. Em resumo, constata que o espírito e o universo estão em perpétua mudança, mas, daí, conclui que as mudanças do espírito determinam as da matéria.
Exemplo: o inventor tem uma ideia, realiza-a, e é esta, materializada, que cria mudanças na matéria.
Hegel é, pois, na verdade, dialético, mas subordina a dialética ao idealismo.
É então que Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895), discípulos de Hegel, mas discípulos materialistas, e dando, por consequência, a importância primeira à matéria, pensam que a sua dialética dá afirmações exatas, mas ao contrário. Engels dirá, a este respeito: com Hegel a dialética conservava-se na cabeça, era preciso repô-la nos pés. Marx e Engels, transferem, portanto, para a realidade material a causa inicial desse movimento do pensamento definido por Hegel, e chamam-no, naturalmente, dialético, servindo-se daquele seu mesmo termo.
Pensam que tem razão para dizer que o pensamento e o universo estão em perpétua mudança, mas se engana, afirmando que são as mudanças das ideias que determinam as das coisas. São, pelo contrário, estas que nos dão aquelas, e as ideias modificam-se porque as coisas se modificam.
Outrora, viajava-se em diligência. Hoje, de trem e avião. Não é por termos a ideia de viajar de trem ou avião, que este meio de locomoção existe. As nossas ideias modificaram-se, porque se modificam as coisas.
Devemos, pois, evitar dizer: «Marx e Engels possuíam, por um lado, o materialismo resultante do materialismo francês do século XVIII, por outro, a dialética de Hegel; por consequência, apenas tinham que os juntar um ao outro».
É uma concepção simplista, esquemática, que esquece que os fenômenos são mais complicados; é uma concepção metafísica.
Marx e Engels tomarão, na verdade, a dialética a Hegel, mas transformá-la-ão. O mesmo farão do materialismo, para nos dar o materialismo dialético.
47 Friedrich ENGELS: «Anti-Dühring

Paquistão e Rússia prontos para construir o gasoduto regional

Islamabad, 9 dez (Prensa Latina) Paquistão e Rússia assinaram um acordo multimilionário para construir um gasoduto marinho que unirá o Irã com este país e a Índia, pese à dura oposição dos Estados Unidos, revelaram hoje fontes oficiais.

Trump pede voto para candidato republicano acusado de assédio

Washington, 8 dez (Prensa Latina) O presidente estadunidense, Donald Trump, chamou ontem o apoio ao candidato republicano ao Senado pelo Alabama, Roy Moore, durante um comício de campanha celebrado na cidade de Pensacola, Flórida.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Argentina no encontro pela Democracia e contra o Neoliberalismo

Buenos Aires, 14 nov (Prensa Latina) O argentino Diego Montón, membro da Coordenadora Latino-americana de Organizações do Campo Via Campesina, será uma das vozes que representará seu país na Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo no Uruguai.

Tensa situação no Zimbábue, tanques avançam para Harare

Pretória, 14 nov (Prensa Latina) A imprensa sul-africana informou hoje sobre o avanço de quatro tanques para Harare, pouco depois que as Forças Armadas do Zimbábue anunciaram estar prontas para frear ações do presidente Robert Mugabe que ameaçam o país.

sábado, 23 de setembro de 2017

Vietnam y Rusia impulsan nexos de asociación estratégica integral


Dương Quang source Impresión

Moscú, (VNA) La entrada en vigor del Tratado de Libre Comercio entre Vietnam y la Unión Económica Euroasiática (UEE), en la cual Rusia desempeña un papel fundamental, abrirá enormes oportunidades para elevar el valor de intercambio comercial a 10 mil millones de dólares.

El ministro consejero de Vietnam en Rusia, Lai Ngoc Doan (Fuente: VNA)


Así lo destacó el ministro consejero de Vietnam en Rusia, Lai Ngoc Doan, en una ceremonia con motivo del 72 aniversario del Día Nacional del país indochino (2 de septiembre).

En la ocasión, Ngoc Doan también recordó el proceso de lucha por la independencia, la empresa de construcción del país y los esfuerzos en la integración internacional en los últimos 72 años.

También subrayó las buenas relaciones de solidaridad y la asociación estratégica integral entre los dos países.

En noviembre venidero, el presidente ruso, Vladimir Putin participará en la Cumbre del Foro de Cooperación Económica Aisa-Pacífico, que se efectuará en la ciudad centrovietnamita de Da Nang. –VNA


Efectúan Intercambio amistoso de Defensa fronteriza Vietnam-China


Trần Hồng Hạnh VNA Impresión

Lai Chau, Vietnam (VNA) – El Intercambio amistoso de Defensa fronteriza entre Vietnam y China fue inaugurado hoy en la provincia norvietnamita de Lai Chau.
Escena del evento (Fuente: VNA)


Copresidido por el subsecretario de la Comisión Militar Central y ministro de Defensa de Vietnam, Ngo Xuan Lich, y el vicepresidente de la Comisión Militar Central de China, Fan Changlong, el evento tiene como objetivo consolidar la confianza política; impulsar los nexos entre los dos países y ejércitos; fortalecer la confianza de los pueblos sobre las fronteras mutuas de paz, amistad, estabilidad y desarrollo duradero; y desmentir las tergiversaciones acerca de las relaciones entre ambas naciones.

En el marco del evento, se efectuó esta mañana un coloquio durante el cual los participantes compartieron experiencias sobre la integración global y las relaciones externas en el sector de defensa, así como iniciativas para impulsar la cooperación comercial y fomentar los nexos entre las comunidades fronterizas.

Además, revisaron los resultados de la cooperación entre las fuerzas de guarda fronteriza e intercambiaron propuestas destinadas a aumentar la eficiencia de esos nexos.

Durante los últimos tiempos, ambas partes mantuvieron el intercambio de información y la coordinación estrecha en las labores de garantía de orden social y seguridad en las áreas limítrofes, especialmente en la lucha contra el narcotráfico y la trata de personas, y en el enfrentamiento a la migración espontánea, el contrabando y el comercio de armas y explosivos.

Numerosos participantes propusieron renovar las actividades conjuntas, tales como ejercicios contra el terrorismo, la violencia y la criminalidad; diversificar los contenidos de la cooperación bilateral y mejorar la capacidad de responder a las situaciones emergentes. – VNA

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Coreia, o inferno fica ao sul






"Ei, que tal vir comigo? Vou tratá-lo bem”, disse uma mulher claudicante de 76 anos de idade ao repórter Hyung-Jin Kim, próximo ao teatro Piccadilly, no bairro Jongno, em Seul, Coreia do Sul. A prostituta idosa é apenas uma das mais de 400 senhoras da região, conhecidas como as “damas de baco”, apelido resultante de uma popular bebida energética, Baccus, que elas tradicionalmente vendem aos idosos masculinos.
“Eu sei que não deveria fazer isso, mas ninguém diria que é melhor morrer de fome do que vir aqui”. Ela começou a vender Baccus há 20 anos. Cerca de dois anos depois começou a vender sexo e continua a fazê-lo para pagar por seu tratamento de artrite, que custa U$ 250 (cerca de R$ 780) por mês.
Ela disse que a maioria das mulheres da praça ganhava de U$ 168 a U$ 252 por mês, mas que as mais velhas (há entre elas idosas de até 84 anos de idade) cobram apenas U$ 8 por sexo. Uma precisa de dinheiro para cuidar da mãe doente, outra para um filho deficiente, já outra é analfabeta nesse dantesco espetáculo de avós, que ao invés de estarem agasalhando os netos no colo, exercem a sua degeneração moral e sexual em praça pública para poder sobreviver.
Essa realidade não é um caso isolado na Coreia do Sul. Pelo contrário. É a confirmação da falência de um modelo que lança ao abandono os seres humanos quando a sua força de trabalho não pode ser mais utilizada para mover a cruel engrenagem do processo produtivo capitalista. Mais que nunca, comprova-se aqui a afirmação do genial Karl Marx de que o capitalismo concentra riqueza e luxo em um polo e fome e miséria no outro.
República do suicídio
A outra opção que resta aos anciãos sul-coreanos é ainda pior. A Coreia do Sul, com 29,1 casos a cada 100 mil habitantes, é a nação do denominado mundo desenvolvido com maior taxa de suicídio. A segunda colocada, Hungria, acompanha de longe, com 19,4 casos a cada 100 mil habitantes.
A incidência dobra na terceira idade, consequência da inexistência de uma rede de proteção, disseminando um quadro de depressão crônica e aguda entre os idosos. “Quando os mais velhos ficam sem recurso, a ideia de se transformar em um peso para os seus filhos pode levá-los a tirar a própria vida”, afirmou Efe Ansuk Jeong, psicóloga e pesquisadora da Universidade de Yonsei, em Seul.
O sistema previdenciário sul-coreano foi criado apenas em 1987 e é muito deficitário. Quase metade dos sul-coreanos com idade de 65 anos ou mais tem renda inferior à metade da média nacional, e o índice de suicídio entre os idosos quase quadruplicou nos últimos 25 anos.
Umas vendem Baccus, oferecem o próprio corpo e dizem: “Estou com fome, não preciso de respeito, não preciso de honra, só quero fazer três refeições por dia”. Outras optam pela morte para não viverem em completa desonra. É uma dolorosa e diária escolha de Sofia.
Diferentemente do que propaga a grande mídia ocidental, é óbvio que, entre as duas Coreias, o inferno situa-se claramente ao sul.
Brasil, a bola da vez
Esse quadro avassalador está prestes a se instalar no Brasil, caso seja aprovada a reforma da previdência proposta pelo governo golpista de Michel Temer, a mando dos banqueiros e dos grandes empresários e latifundiários. O trabalhador braçal passará a ser uma figura absolutamente descartada na nossa Constituição.
Mesmo que atinjam os 65 anos de idade – o que está acima da expectativa de vida nas regiões mais pobres – raros serão os trabalhadores menos qualificados que conseguirão comprovar 25 anos de recolhimento ao INSS (atualmente, a exigência é de 15 anos). Isso para se aposentarem com o salário mínimo. Para se aposentarem com o teto (R$ 5.579) serão necessários 40 anos de contribuição. No caso dos empregos sazonais, como na construção civil, a regra em média é um ano de contribuição para cada dois anos trabalhado. Entre uma construção e outra, o operário se mantém fazendo bico ou às custas do seguro desemprego. Ou seja, terá que trabalhar 50 anos para comprovar 25 de recolhimento e só então se aposentar.
Os beneficiários do BPC (Benefício da Prestação Continuada) praticamente deixarão de existir com o aumento da idade de habilitação de 65 para 68 anos. Até lá já estarão todos mortos. Note-se que o BPC – benefício que atende a famílias que tenham renda per capita de até 1/4 do salário mínimo – é o maior instrumento de distribuição de renda do país. Em 2016, enquanto o bolsa família teve um aporte de R$ 26 bilhões, o BPC aportou R$ 39 bilhões. Serão 3,6 milhões de famílias de idosos pobres a serem atingidas. O nome que se dá a isso é genocídio com requintes de crueldade.
Dos cerca de 90 milhões de brasileiros ocupados, mais de 1/3 não contribui com a previdência social. Dos 2/3 contribuintes, muitos o fazem irregularmente. É essa a enorme legião de futuros idosos, candidatos a pedintes, prostitutas ou suicidas que serão espalhados pelo país, caso o povo não tome em suas mãos a missão de derrotar a PEC 287/2016 e expulsar do governo federal a quadrilha que quer aniquilar os nossos direitos e assaltar as riquezas produzidas pelas nossas mãos e nossas mentes.
Em tempo: a previdência não está falida. Os auditores fiscais da receita federal – autoridades maiores no assunto – provaram por A+B que a seguridade social permanece superavitária no Brasil, apesar da crise. Mas o governo continua sacando a descoberto 30% dessa receita, autorizado pelo Congresso, para pagar os serviços da dívida pública, ou seja, pagar com a miséria do povo trabalhador o luxo, as viagens, as farras e o lazer de um punhado de famílias de rentistas que não geram qualquer emprego e nem produzem uma cabeça de alfinete que seja e já nascem aposentados.
Pedro Laurentino, poeta e diretor do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Piauí

sábado, 9 de setembro de 2017

Por que razão os EUA evacuaram chefes do Daesh de Deir ez-Zor? .

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Enquanto Washington nega a evacuação de comandantes do Daesh de Deir ez-Zor, a probabilidade de isso ter ocorrido é quase de 100%, acredita o senador russo Frantz Klintsevich.
De acordo com ele, este gesto norte-americano é explicado pelo fato de que “os EUA sempre veem o propósito da sua existência na confrontação com a Rússia”.
Caça multifuncional Su-35
© SPUTNIK/ RUSLAN KRIVOBOK
Na quinta (07) a Sputnik recebeu a informação de que a Força Aérea dos EUA tinha evacuado mais de 20 chefes militares de Deir ez-Zor. A coalizão internacional negou a informação. Mas, de acordo com o vice-presidente do Comitê para a Defesa do Conselho da Federação (câmara alta do Parlamento russo) Frants Klintsevich, a evacuação teve realmente lugar.
“Não importa como se tenta refutar as informações sobre a evacuação de mais de 20 comandantes da região de Deir ez-Zor, toda a vasta experiência das ações norte-americanas, incluindo no Afeganistão, nos leva à convicção que isso ocorreu com a probabilidade de quase 100%. Tendo vivido essa guerra, posso dizer que sentimos a participação direta dos americanos do lado dos Mujahidin”, escreveu Klintsevitch na sua página no Facebook.
De acordo com ele, não seria possível evacuar centenas de jihadistas de Deir ez-Zor, mas aqui o número não importa. O que importa aqui é que “os EUA sempre veem o propósito da sua existência na confrontação com a Rússia”.
Cidade de Deir ez-Zor
© AFP 2017/ AHMAD ABOUD
Cidade de Deir ez-Zor
Uma fonte diplomática e militar confirmou à Sputnik que, em 26 de agosto, um helicóptero militar norte-americano evacuou dois chefes militares do Daesh “de origem europeia” e os membros das suas famílias da localidade de al-Treif, situada a nordeste de Deir ez-Zor.
Em maio do ano em curso a aviação norte-americana já havia evacuado os chefes de guerra e mercenários estrangeiros de origem europeia que estavam combatendo na região de Deir ez-Zor. Em junho e julho, foram realizadas operações de evacuação de terroristas na província de Raqqa.
Fonte: Sputinik

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O bolchevismo como problema moral - György Lukács




Por György Lukács

O artigo "O bolchevismo como problema moral" foi publicado em dezembro de 1918 no
órgão do Círculo Galileu, Szabad Gondolat (Livre Pensamento). Como se sabe, Lukács
aderiu ao PC Húngaro poucos dias depois da aparição deste ensaio contra o bolchevismo.
Alguns militantes do Partido ficaram impressionados com essa reviravolta e com a rapidez
com que Bela Kun e a direção do PC Húngaro aceitaram o recém-chegado e entregaram
responsabilidades importantes ao "antibolchevique" da véspera.¹
Algumas semanas mais tarde, Lukács, "convertido" ao bolchevismo, escreve Tática e Ética,
que constitui sua resposta comunista a suas hesitações morais em Szabad Gondolat.
Como procuramos mostrar (Cap. I), "O bolchevismo como problema moral" constitui o
último ponto do dualismo neo-kantiano em Lukács, da aposição rígida e sem
compromissos entre o dever-ser e o ser. Trata-se de um escrito eminentemente
"transitório", que recusa o bolchevismo na medida em que é atraído por sua "força
fascinante", e que deve ser examinado sobretudo como etapa decisiva na evolução
ideológica de Lukács, mesmo se ele procura elaborar uma concepção política coerente e
autônoma.
É muito provável que as críticas de Lukács endereçadas ao bolchevismo tenham sido,
direta ou indiretamente, inspiradas por Erving Szabo, que, em artigo publicado em junho
de 1918, no Szabad Gondolat, preconizava o princípio ético absoluto segundo o qual "a lata
por fins puros não podia tolerar meios impuros", e que manifestava a seus amigos mais
íntimos reservas e temores a respeito da política do poder soviético. Essas críticas estavam
também estreitamente ligadas à problemática ética do ensaio de Lukács sobre o idealismo
progressista.

György Lukács*
Não pretendemos ocupar-nos aqui das possibilidades de realização prática do
bolchevismo, nem das consequências úteis ou nocivas de seu eventual acesso ao poder.
Independentemente do fato de que o autor destas linhas não se sente em absoluto
competente para atacar esse gênero de problema, parece entretanto oportuno, a fim de
poder colocar claramente a questão, fazer completa abstração da reflexão sobre as
consequências práticas: a decisão é – como em toda questão importante – de natureza
ética cuja clarificação imanente, justamente do ponto de vista da ação pura, é a tarefa
atualmente primordial. De uma parte, este modo de pôr a questão se justifica pelo fato de
que o argumento frequentemente mais empregado na discussão em torno do bolchevismo,
a saber, se a situação econômica e política está suficientemente madura para sua realização
imediata, nos coloca, a priori, diante a um problema insolúvel; a meu ver, não pode existir
jamais uma situação que possamos reconhecê-la com toda certeza e por antecipação: a
vontade, que se dá como objetivo a realização imediata a qualquer preço, é parte
integrante da situação "madura" tanto quanto as condições objetivas. De outra parte, o
reconhecimento do fato de que a vitória do bolchevismo poderia eventualmente destruir
grandes valores culturais e civilizadores não pode jamais ser um contra-argumento
decisivo para aqueles que o adotam por razões éticas ou histórico-filosóficas. Esses
tomarão consciência desse fato, lamentando-o ou não, mas, percebendo seu caráter
inevitável, nada mudarão – com razão – do objetivo fixado. Porque sabem que tal
perturbação de valores de envergadura mundial não pode produzir-se sem o
aniquilamento de antigos valores, e porque sua vontade, dirigida para a criação de valores
novos, reconhece, em si mesma, forças suficientes para compensar largamente a
humanidade futura da perda dos outros.
Pareceria que depois disso, e para um socialista sério, não poderia sequer haver problema
ético, não restando dúvida quanto à decisão em favor do bolchevismo. Porque se a
imaturidade das condições e o aniquilamento dos valores não contam como obstáculos
essenciais, o problema, provavelmente, coloca-se assim: pode ser bom socialista aquele
que, nesse momento, nos propõe mais uma vez refletir, aguardar seja lá o que form, em
suma, quem nos fala de compromisso? E quando, diante disso, um não-bolchevique referese
ao princípio da democracia – que a ditadura da minoria exclui por natureza e
conscientemente –, os discípulos de Lenin, de acordo com uma das declarações de seu
chefe, reagem retirando do nome do programa de seu partido inclusive o termo
'democracia', e ser declaram simplesmente comunistas. A possibilidade mesma de pôr o
problema ético passa a depender da maneira pela qual se decide se a democracia faz parte
tão-somente da tática do socialismo (como instrumento de combate para o período em que
é minoritário, enquanto luta contra o terror organizado e ilegal das classes opressoras), ou
se é parte integrante dele, de tal modo que seja impossível suprimi-la sem que antes sejam
esclarecidas todas as suas consequências éticas e históricas. Porque, nesse último caso,
para todo socialista consciente e responsável, a ruptura com o princípio da democracia
seria um problema ético extremamente grave.
Raros foram os que tiveram discernimento suficiente para separar a filosofia da história de
Marx de sua sociologia. Do mesmo modo, frequentemente não se percebeu que os dois
pontos cardeais do sistema, a luta de classes e a ordem socialista, chamada a suprimir as
classes e toda opressão, por mais estreita que seja sua interdependência, não são produtos
do mesmo caminho conceitual. A primeira, uma constatação da sociologia marxiana que
fez época, a saber, que a ordem social sempre existiu e que necessariamente tem uma força
motriz, é dos princípios básicos mais importantes dos verdadeiros nexos que compõem a
realidade histórica. A segunda é um postulado utópicos na filosofia da história de Marx:
um programa ético para um mundo novo a vir. (O hegelianismo de Marx, que tem uma
tendência excessiva a colocar os diferentes elementos do real no mesmo plano, contribuiu
para ocultar essa diferença.) Portanto, a luta de classe do proletariado, chamado a conduzir
essa nova ordem social, enquanto luta de classes, não contém em si mesma a nova ordem.
Do único fato da liberação do proletariado, suprimindo a opressão da classe capitalista,
não decorre a destruição de toda opressão de classe, tanto quanto ela não decorria do
resultado das lutas libertadoras e vitoriosas da classe burguesa. Sobre o plano da
necessidade sociológica exclusivamente, isto significava apenas a mudança da estrutura de
classe, a transformação do antigo oprimido em opressor. Para que isso não se reproduza,
para que se chegue enfim à era da verdadeira liberdade sem opressores nem oprimidos, a
vitória do proletariado é, claro uma condição prévia indispensável – porque ela permite a
liberação da última classe oprimida –, mas ela não pode ser mais que uma condição prévia,
um fato negativo. – Para que ela se realize essa era de liberdade é necessário, além da
simples constatação dos fatos sociológicos e das leis dos quais não pode
derivar), querer esse mundo novo: o mundo democrático. Entretanto, esta vontade –
justamente por que não decorre de nenhuma verificação de fato sociológico – e um
elemento essencial da óptica socialista, que não pode ser descartado sem o risco de
derrocar todo o edifício. Porque é esta vontade que faz do proletariado o portador da
redenção social da humanidade, a classe messias da história do mundo. E sem
o pathos desse messianismo, a marcha triunfal sem paralelo da social-democracia teria
sido inconcebível. E se Engels via no proletariado o herdeiro da filosofia clássica alemã, o
fez com razão, porque desse modo se transformou finalmente em ação o idealismo ético e
Kant e de Fichte, que suprimia todo apego terrestre e que queria arrancar de seus eixos –
metafisicamente – o velho mundo. Somente assim pôde-se tornar ação aquilo que neles
era apenas pensamento: pode-se dirigir direto ao fim o que em Schelling, se desliga do
caminho do progresso pela estética, e em Hegel pela teoria do Estado, para se tornar no
fim das contas reacionário. Ainda que Marx tenha construído esse processo históricofilosófico
à maneira hegeliana (List der Idee)², a saber, que é lutando por seus interesses
de classe imediatos que o proletariado chegará a libertar o mundo de todo despotismo, no
instante da decisão – e este instante está aí – torna-se impossível não ver a separação entre
a árida realidade empírica e a vontade ética, utópica, humana. E ver-se-á, então, se o papel
redentor do socialismo consiste realmente em ser o portador ao mesmo tempo submisso e
voluntário da redenção do mundo – ou se não passa de um invólucro ideológico de
interesses de classe, mas que só se diferenciam de outros interesses de classe por seu
conteúdo, e não por sua qualidade ou força moral. (As teorias libertadoras da burguesia do
século XVIII proclamaram e acreditaram igualmente na redenção do mundo, por exemplo,
pela livre concorrência; mas o fato de que não se tratava senão de uma ideologia
construída a partir de interesses de classe, só foi descoberto em plena revolução francesa
no momento da decisão.)
Em consequência, se a ordem social sem opressão de classe – a social-democracia pura –
fosse apenas uma ideologia, então, não teria sentido falar neste momento de problema
moral, de dilema moral. O problema moral aparece precisamente pelo fato de que para a
social-democracia, o objetivo final de toda luta, o que decide e coroa tudo, encontra-se
misto: o sentido final da luta do proletariado é tornar impossível toda luta de classe
posterior, de criar uma ordem social tal que ela não possa aparecer mais, mesmo sob a
forma de pensamento. Eis aqui diante de nós, portanto, sedutora por sua proximidade, a
realização desse objetivo, e é de sua proximidade que nasce o dilema ético. Ou nós
assumirmos a ocasião para realizar esse objetivo, e então nos colocaremos
obrigatoriamente sobre o terreno da ditadura, do terror, da opressão de classe, o que nos
fará trocar a dominação das classes precedentes pela dominação de classe do proletariado,
acreditando que – Satã expulso por Belzebu – esta última dominação de classe, por sua
natureza mais cruel e aberta, se destruirá a si mesma e com ela toda dominação de classe,
ou, então, nós queremos que a nova ordem social seja realidade por meios novos, pelos
meios da verdadeira democracia (porque a verdadeira democracia não existiu até agora
senão como exigência, jamais como realidade, mesmo nos Estados mais democráticos).
Mas, neste caso arriscamo-nos a concluir que, como a grande maioria da humanidade
atualmente ainda não quer a nova ordem social, e nós mesmos não queremos dispor dela
contra sua vontade, devemos esperar, propagar a fé na expectativa, até que a própria
humanidade, dispondo livremente de si mesma e de sua vontade, faça enfim nascer a
ordem de há muito desejada pelos mais conscientes, para os quais era a única solução
possível. O dilema ético vem do fato de que cada atitude contém em si mesma a
possibilidade de crimes monstruosos e de erros incomensuráveis, mas que deverão ser
assumidos com plena consciência e responsabilidade por aqueles que se sintam obrigados
a escolher. O perigo que a segunda solução apresenta é perfeitamente claro: trata-se da
necessidade – provisória – de colaborar com as classes e os partidos que só estão de acordo
com a social-democracia sobre certos objetivos imediatos, mas que permanecem hostis ao
seu objetivo final. A tarefa, então, é encontrar uma forma tal que essa colaboração seja
possível sem que a pureza do objetivo, sem que o pathos de vontade de sua realização
percam seja o que for de sua essência. A possibilidade do erro e do perigo encontra-se no
fato de que é muito difícil, até impossível, sair do caminho direito e direto da realização de
uma convicção qualquer, sem que esse desvio assuma uma certa autonomia, sem que a
diminuição intencional do ritmo da realização opere sobre o pathos da vontade. O dilema,
diante do qual a exigência da democracia coloca o socialismo, é um compromisso externo,
que não deve tornar-se um compromisso interno.
A força fascinante do bolchevismo explica-se pela liberação que resulta da supressão desse
compromisso. Mas aqueles que são enfeitiçados por essa possibilidade nem sempre são
conscientes das responsabilidades que lhes cabem desde logo. Seu dilema torna-se então o
seguinte: pode-se atingir o que é bom por meio de maus procedimentos, pode-se chegar à
liberdade pela via da opressão? Pode nascer um mundo novo quando os meios utilizados
para realizá-lo não diferem senão tecnicamente dos meios detestados e desprezados, com
razão, do mundo antigo? Parece que é possível referir-se, neste caso, à constatação feita
pela sociologia marxista, a saber, que todo desenvolvimento da História consistiu na luta
dos oprimidos e opressores, e que consistirá sempre nisso; que mesmo a luta do
proletariado não pode subtrair-se a essa "lei". Mas se isso fosse verdade – como nós já o
dissemos –, então, todo o conteúdo espiritual do socialismo, excetuando a satisfação dos
interesses materiais imediatos do proletariado, não seria mais do que ideologia. E isto é
impossível. E porque é impossível, não se pode erigir uma constatação de fato histórico em
pilar do valor moral, da vontade de construir a nova ordem social. É preciso, então aceitar
o mal enquanto mal, a opressão enquanto opressão, a nova dominação de
classe enquanto dominação de classe. E é preciso acreditar – e é verdadeiramente credo
quia absurdum est - que dessa opressão não renasça mais uma vez a luta dos oprimidos
pelo poder (pela possibilidade de uma nova opressão), e em consequência de uma série
infinita de lutas eternas sem objetivo e sem razão, mas, ao contrário, que a opressão seja
ela mesma suprimida.
A escolha entre as duas atitudes é, portanto, como em toda questão de ordem moral, uma
questão de fé. Para um observador penetrante, mas talvez superficial nesse caso preciso, se
tantos velhos socialistas provados recusam a posição bolchevique, é porque sua fé no
socialismo estaria abalada. Confesso que não o creio. Porque não acredito que seja
necessário mais fé para o "rude heroísmo" da decisão bolchevique do que para a luta lenta,
aparentemente menos heróica, e entretanto carregada de responsabilidades profundas, a
luta que trabalha a alma, longa e pedagógica, daquele que assume até o fim a democracia.
A primeira atitude aparente de sua convicção imediata, enquanto na segunda, esta pureza
é sacrificada conscientemente para que, por meio desse auto-sacrifício, possa-se realizar a
social-democracia em sua totalidade e não apenas um de seus fragmentos, destacados de
seu centro. Repto: o bolchevismo baseia-se sobre a seguinte hipótese metafísica: o bem
pode surgir do mal, e é possível, como o diz Razoumikhine em Raskolnikov,³ chegar à
verdade mentindo. O autor dessas linhas é incapaz de partilhar essa fé, e isto porque vê um
dilema moral insolúvel na raiz mesma da atitude bolchevique, enquanto a democracia -
acredita – não exige daqueles que a querem realizar consciente e honestamente até o fim
senão uma renúncia sobre-humana e o sacrifício de si. E, entretanto, ainda que esta
solução exija uma força sobre-humana, no fundo não é insolúvel, como o é o problema
moral posto pelo bolchevismo.
_______________________________________________________
1. Cf. J. Lengyel, Visegrader Strasse, Berlim, Dietz Verlag, 1959, p. 140.
* A bolsevizmus mint erkölei problema (O bolchevismo como problema moral). Szabad
Gondolat, dezembro de 1918, reeditado em György Litvan, Laszlo Szucs, A Szociologia elsö
magyar mühelye. Valogatos, Budapest, Tarsadolomtydomanyi Könyvtor, Gondolat, 1973,
vol. II.
2. Em alemão no texto. Na realidade a expressão de Hegel é List der Vernunft, "a astúcia
da Razão".
3. Raskolnikos: título alemão do romance Crime e Castigo de Dostoievsky